Construtivismo e Liderança

Construtivismo parece coisa para criança, assim parece dizer o senso comum, que está longe da verdade. Seu teórico mais conhecido é Piaget, que propôs a teoria do conflito sócio-cognitivo.

Segundo Piaget, cada pessoa possui um sistema interno de auto-ajuste de novas experiências ao inventário de estruturas cognitivas existentes, fruto de outras experiências anteriores, e que é chamado de processo de assimilação.

Ao processo de assimilação segue-se o processo de acomodação, que é a revisão das estruturas cognitivas em função dessas novas experiências. É a relação entre assimilação e acomodação que maximiza o processo cognitivo e é conhecido como esquema cognitivo.

O processo de assimilação-acomodação define que o aprendizado ocorre no indivíduo, e que tem sua fonte de estímulo na interação social, entendida como a relação do indivíduo como tudo que o cerca. Ou seja, o indivíduo constrói o conhecimento pelo conflito entre o inventário daquilo que já sabe e as novas experiências sociais a que se expõe.

Há um outro teórico, menos conhecido fora dos muros da educação, mas de grande importância, apesar de sua obra ter sido interrompida por morte prematura. Esse teórico chama-se Vygotsky.

O fundamento do seu pensamento é que a consciência individual não é primária e original, não num sentido valorativo negativo, apenas indica que o indivíduo forma sua consciência a partir da compreensão de que não está sozinho e que é o ambiente social que propicia a produção do conhecimento.

Diferente de Piaget, Vygotsky crê que o funcionamento mental do indivíduo não é somente derivado de sua interação social, ou seja, o indivíduo com as experiências sociais. Ao contrário, é a interação entre indivíduos que estabelece os limites das experiências de aprendizagem.

Vygotsky sugere que o aprendizado é coletivo e que o professor tem um papel crítico na construção de conhecimentos que estejam além das experiências de vida do grupo. Também o professor tem papel fundamental na estimulação do grupo como unidade de validação do conhecimento produzido das normas e dos sentidos das coisas. O professor é agente mediador entre o grupo e o conhecimento, cabendo aos membros dessa coletividade, mediante interações, produzir o conhecimento.

Organizações, Construtivismo e Liderança

A rigor, ambas as teorias são complementares, apesar de haver partidarismos teóricos bem marcados, contudo, se trouxermos ambas as contribuições para a prática veremos que parte do aprendizado ocorre pelo choque entre o que acho que sei e o que o mundo me apresenta. O aprendizado também ocorre quando interajo com outros indivíduos e por essa interação novos conhecimentos são construídos. O conflito cognitivo extrapola o indivíduo e se apresenta nas relações sociais mediadas pela linguagem, instrumento fundamental para permitir a interação entre indivíduos.

Vygotsky trata muito do papel do professor como mediador entre o grupo de aprendizes e o conhecimento. Substituamos a figura do professor pela do líder organizacional, e os aprendizes pelos colaboradores da empresa.

A empresa pode ser considerada um conjunto de conhecimentos acerca de processos, mercados, comportamentos de clientes e consumidores, regulação  e por aí segue.

Supondo que essa visão de empresa seja próxima à verdade, então, todo novo colaborador deve passar por um processo de assimilação-acomodação, bem como, aprender dos outros como “as coisas funcionam”.

A organização é um transmissor de conhecimentos e nesse sentido o líder organizacional ganha o papel de mediador entre o que os colaboradores conhecem e aquilo que é conhecimento aceito pela organização. Nesse sentido, o líder construtivista é um mediador entre o estoque de conhecimento existente na organização e o conhecimento que se formará no colaborador.

Quando se trata de inovação, a abordagem de Vygotsky ganha contornos especiais, pois o processo de inovar é coletivo e fundamentado em linguagem, outro elemento central na teoria construtivista de Vygotsky.

A linguagem torna-se elemento fundamental para a construção e compartilhamento da visão da inovação. Por sua vez, a linguagem ordenará a estruturação do protótipo, do processo em escala e do plano de marketing e vendas.

Em contextos de inovação a liderança construtivista é fundamental como agente mediador entre o que a organização conhece e aquilo que ela precisa conhecer para que se crie inovação.

Contudo, alguns elementos são necessários para que o líder organizacional se torne um líder construtivista e isso é assunto de nossa próxima conversa.

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