MBA em foco

Observa-se a expansão global dos cursos de pós-graduação em Administração, principalmente do tipo MBA (Master on Business Administration), inclusive com abertura de campi avançados de prestigiosas universidades em diversos países, sejam desenvolvidos, BRICS ou emergentes.

O MBA é um curso de pós-graduação originado no âmbito do sistema político, social e cultural norte-americano  e é definido, segundo o GMAC,  como um curso de pós-graduação em administração que procura criar executivos que exerçam liderança no seu ambiente econômico, político e social.

Crotty e Soule (1997) publicaram extenso artigo em que discutem a história dos MBA’s nos EUA e os desafios que se colocam à frente dessa modalidade. Os MBA’s remontam ao final do século XIX, em Wharton e início do século XX com Harvard.

No Brasil, por sua vez, não há uma definição consensual sobre qual é o papel do MBA, posto que oferecemos cursos de graduação em administração, que até por força de legislação são os únicos que permitem a prática profissional. Nem lato sensu, tampouco stricto sensu em Administração permitem a prerrogativa do exercício profissional sob aspectos legais.

O  que se sabe, contudo, é que a legislação classifica os cursos dessa modalidade como pós-graduação lato sensu (CNE/CES nº 1, de 3 de abril de 2001). Por enquanto e à luz da legislação não há uma concordância sobre a definição de um MBA, qual é o seu objetivo educacional, senão caracterizar-se por uma especialização.

Conforme o trabalho dos pesquisadores Wood e Paula (2001), o conhecimento científico acumulado sobre as limitações educacionais dos modelos de MBA baseia-se em visões construídas a partir da realidade das economias centrais, contudo, como as estruturas curriculares desses cursos no Brasil inspiram-se principalmente nas das escolas de negócios americanas, é de esperar que a crítica também se estenda aos MBA´s no Brasil.

Há duas vertentes importantes de críticas aos MBA’s nos EUA. A primeira liderada por Mintzberg que assevera que essa modalidade não forma indivíduos críticos o suficiente para liderar um mundo de emergência e volatidade.

A outra vertente liderada pelo falecido Goshal, defende que os cursos de MBA difundem teorias que culminam com lideranças empresariais questionáveis em função de colocarem como centro das discussões o oportunismo como direcionador do comportamento organizacional. Acho que a crise de 2008 confirmou a tese desse saudoso pesquisador.

Caso a tese de Wood e Paula esteja certa, então nossos currículos estão também contaminados pelos vícios identificados nos correlatos americanos. Contudo, há uma janela de oportunidade.

De um lado o Acordo de Bologna,dentro do conceito do Espaço de Ensino Comum Europeu, tem como um de seus princípios mais relevantes o fato de que a educação é um processo para a vida toda, ininterrupto, para a formação de novas competências que os contextos de competitividade global, responsabilidade social e ambiental, regulatório, entre outros, impõem à competitividade do profissional no mercado de trabalho (empregabilidade).

De outro, o Brasil precisa reconhecer em seus currículos a realidade da pequena e média empresas, com situações de ensino que enderecem as demandas e limitações financeiras e de gestão a que estão sujeitas. Quantos cursos ministrei em que me senti incomodado porque todos os livros ou casos tratavam de médias-grandes corporações, enquanto via a expectativa de alguns pequenos empresários acerca de como aplicar aquele conhecimento.

Em síntese, não creio que o MBA no Brasil deva seguir o padrão americano de que o interessado deve passar 3 ou 4 anos trabalhando e depois fazer o curso, até porque cada vez mais o MBA lá não representa os mesmos saltos salariais de há dez anos passados, ou seja, a aceleração de carreira deixa pouco a pouco de ser o atrativo.

Somos um país que a inclusão no ensino superior de grande volume de cidadãos ocorreu nos últimos 20 anos, logo, há hiatos formativos importantes e creio que todas as modalidades de lato sensu, são válidas e necessárias (extensão, aperfeiçoamento e especialização) quando se pensa em melhorar o estoque de capital intelectual, a produtividade individual e coletiva.

A Alemanha sempre foi marco de avanço tecnológico porque criou um sistema de educação integrado ao setor produtivo e com a mesma ênfase de desenvolvimento continuado que se incorpora ao Espaço Europeu de Ensino via Acordo de Bolonha.

Em suma, precisamos estudar muito, aprender muito para de fato sairmos do crescimento pífio que experimentamos ao longo dos últimos trinta anos. A Educação é basilar e a conscientização do indivíduo de que é preciso estudar ao longo de toda a vida é princípio e valor.

Também há que se endereçar a estrutura curricular dos MBA’s: que elas atendam mais as reais demandas locais, sem perder a visão global, de sorte a servir efetivamente àquilo que a sociedade e o ambiente econômico brasileiros realmente carecem.

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