The Rise of Silicon Valley as a Political Powerhouse and Social Wrecking Ball. Noam Cohen, Oneworld, 2017

O livro traça uma análise histórica sobre como o Vale do Silício se tornou a potência econômica e política da atualidade.

A tese do livro gravita ao redor de uma parábola do episódio do Twilight Zone, “To Serve Man” sobre a ambiguidade de promessas, e a limitação de se identificar as reais intenções do emissor a partir de seu discurso. A promessa em questão era a de se alcançar o bem comum pela busca do bem individual.

Segundo o autor o crescimento da região, e em particular de Stanford, foi justificado pelo argumento da promessa de que as empresas de tecnologia, com sólidas vantagens competitivas, acabariam por melhorar as vidas das pessoas em geral. Uma promessa de liberdade geral que justificava a agressividade e o apetite de empresas e investidores em tecnologia.

Um corolário dessa promessa é a utilização do argumento de liberdades individuais absolutas e a consequente diminuição da regulação governamental, incluindo aquela relacionada à competição.

Em tom biográfico, o autor constrói a tese do livro sobre Inteligência Artificial (IA), ciência da computação, internet e investidores de risco. Assim, inicia sua jornada por John McCarthy, figura seminal de IA, que, em resumo, defendia que a inteligência artificial representaria melhora do potencial humano.

Como McCarthy fora contratado por Frederick Terman para deixar o MIT e se juntar a Stanford, a história se concentra agora no papel central que Terman, professor, Diretor de Escola, Reitor e Vice-Presidente de Assuntos Acadêmicos, representou para que Stanford ocupe o posicionamento e o reconhecimento como uma instituição de empreendedorismo e tecnologia. Terman acreditava que a aproximação com a indústria, a defesa e as agência governamentais de ciência trariam os fundos necessários para o crescimento e perpetuação de Stanford como um celeiro de inovação e novos empreendimentos. A experiência de estimular o desenvolvimento da HP se provou como a estratégia correta no sentido de assegurar fluxo de capital para a Universidade: assim com a HP se tornou doadora, o mesmo se passou com o Yahoo, Google, entre outros casos que foram incubados por Stanford.

Terman estabelece o ecossistema de Stanford que no pós-guerra se consolida e eleva a Universidade a uma posição de prestígio com outras instituições mais tradicionais e respeitadas, e que estavam na Nova Inglaterra, como, por exemplo, Harvard e MIT.

Estruturado o sistema, os Venture Capitalists (VC) e Stanford começam a olhar para Bill Gates e o papel da Microsoft na popularização da computação, seguido por Berners-Lee e seu projeto de consulta, organização e recuperação de dados pela criação do Hyper Text Markup Language, consolidada por Marc Adreesen no primeiro browser, o Mosaic, em 1993.

Em 1993 a internet se tornou totalmente aberta para negócios com a promulgação da Lei de Infraestrutura Nacional de Informação que entregou o desenvolvimento da internet para o mercado, tirando das mãos do governo americano.

Agora com a internet e a consolidação dos VC, a experiência da fundação da Silicon Graphics incorpora a visão estratégica que nortearia a evolução dos próximos empreendimentos: crescer grande, rápido, e explorar exaustivamente o efeito de network.

Veteranos do Pay-Pal (Peter Thiel, Reid Hoffman) criam um grupo de network em que são suas crias o YouTube, Yelp, LinkedIn, Tesla e, por extensão, o Facebook. A primeira oportunidade de investimento externo do Facebook foi passada de um veterano do PayPal, Hoffmann, para outro, Thiel, já que Hoffmann conclui que sua nova companhia, o LinkedIn, poderia criar conflito de interesses.

Era de se esperar, segundo Cohen, que os fundadores do Google e do Facebook sucumbiriam ao poder e dinheiro oferecido pelos VC, e culminam por concordar em reorientar seus desenhos sociais para um de geração de lucros em grande escala.

Outros empreendedores como Marc Adreessen, Peter Thiel e Jeff Bezos, menos idealistas, segundo o autor, do que Page, Brin ou Zuckerberg, injetaram o necessário de idealismo tecnológico em seus esquemas geradores de lucro – por exemplo, dar voz aos os consumidores – para criar suas empresas lucrativas.

O autor conclui, agora, já não em tom biográfico, mas sim crítico, que os Know-It-Alls desmistificam a ideia de um mercado livre à entrada de novos empreendimentos e consolidam o poder do network e de um ecossistema construído para produzir empreendimentos a partir de fundamentos de engenharias computacionais. Berners-Lee acreditava numa internet mais colaborativa, descentralizada e minimamente comercial, e o Vale do Silício apontou outra direção.

McCarthy e seus pares não buscavam enriquecer individualmente, mas buscavam projetar como a sociedade se beneficiaria por ter uma inteligência suprema a guiando. Por desafiar a ideia de autoridade, McCarthy e os hackers, que originalmente eram programadores que buscavam resolver os problemas impostos pelos primórdios da computação, deram conforto ao impulso criativo-destrutivo dos fundadores das startups, segundo o autor.

Cohen é duro ao criticar Terman por impor os seus valores ao mundo por meio da visão empreendedora que implantou em Stanford: Terman não compreendia porque sua universidade, seus estudantes e professores não poderiam lucrar a partir de suas ideias brilhantes.

Por fim, retornando à tese do livro, deixa a pergunta se a sociedade quer ser determinada pela racionalidade das ciências exatas. Defende que a democracia, como contraste ao controle de um núcleo técno-financeiro, ainda é o mecanismo para que a sociedade seja ouvida e seus interesses considerados. O autor defende que o bem da sociedade é estabelecido no enfrentamento dos interesses no espaço democrático e não em laboratórios de IA.

Finaliza Cohen que a perniciosidade desse esquema é a destruição do micro pelo macro, provocada pela lógica da centralização das relações -econômicas, politicas, pessoais em plataformas tecnológicas. A internet pode e deve trabalhar para nós, ao invés do contrario, pela diversidade de vozes, plataformas livres para organizar e colaborar como Berners-Lee originalmente desejava.

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